São Carlos Lwanga e Companheiros Mártires

Os Mártires de Uganda

 

 

Durante toda sua existência a Igreja gerou mártires que, com seu sangue, pregaram sua fé em Jesus Cristo. Os 22 mártires de Uganda, no século XIX, foram vítimas do ódio homossexual

 

 

 

Contexto histórico

 

No final do século XIX o mundo capitalista viu mudar rapidamente as relações de trabalho. A 2ª Revolução Industrial representou não apenas uma mudança tecnológica, mas principalmente de organização da produção e do trabalho, numa época caracterizada pela ascensão da burguesia ao poder, em diversos países da Europa Ocidental, Estados Unidos e Japão.

O desenvolvimento industrial ocorreu paralelamente ao crescimento das cidades e da formação e desenvolvimento da classe operária. As condições de trabalho e de vida das massas urbanas eram marcadas por grande exploração e miséria.

Enquanto isso ocorria na Europa, a África também passava por transformações. Nossos santos de hoje, São Carlos Lwanga e seus companheiros, são a marca dessa mudança.

O continente só foi aberto aos europeus depois da metade do século XIX. Antes disso, as relações entre as culturas davam-se de forma violenta, principalmente por meio do comércio de escravos. Portanto, não é de estranhar que os primeiros missionários encontrassem, ali, enorme oposição, que lhes custava, muitas vezes, as próprias vidas.

No século XIX, Buganda era um reino independente ao norte do Lago Vitória, no centro da África. Ele se tornaria depois uma das quatro províncias do protetorado inglês de Uganda. Monarquia hereditária de tipo africano, seu monarca tinha direito de vida e morte sobre seus súditos. Governo organizado, o que era raro naquele continente, Buganda surpreendeu os europeus.

Cerca de três mil pessoas viviam no conjunto do palácio real, incluindo 400 pajens encarregados dos ofícios mais diversos ligados ao monarca. Tais pajens eram escolhidos pelos chefes locais entre os mais inteligentes e bem apessoados meninos de 12 anos do reino, e quando atingiam os 20 anos de idade passavam para a guarda pessoal do rei. A elite de Buganda tinha assim, à testa, esses jovens formados no palácio real.

Os primeiros missionários católicos chegaram ao reino em 1878, os “Missionários da África” ou “Padres Brancos” franceses, sendo cortesmente recebidos pelo rei, Mutesa I, como o foram também protestantes e muçulmanos.

A pregação começou por Uganda, onde conseguiu chegar a “Padres Brancos”, congregação fundada pelo cardeal Lavigérie. Posteriormente, somaram-se a eles os padres combonianos. A maior dificuldade era mostrar a diferença entre missionários e colonizadores.

Os “Padres Brancos” abriram um orfanato que se tornou o núcleo da futura cristandade, mas ficaram desapontados com o fraco interesse do povo. Também os órfãos se mostraram muito arredios e difíceis de educar. De modo que, em 1882, os missionários tiveram que se retirar do país. Deixaram, entretanto, alguns conversos que não só perseveraram, mas começaram a fazer apostolado por sua conta.

Quando faleceu Mutesa I em 1884, subiu ao trono seu filho Muanga II, de 18 anos. Este não tinha o senso político do pai e era dado às práticas homossexuais, utilizando para suas torpes ações os pajens da corte. Apesar disso, Muanga pediu que voltassem ao reino os missionários, aos quais tinha admirado em sua infância. Eles o fizeram somente dois anos depois, tendo a alegria de encontrar um núcleo de aproximadamente duzentos conversos entre rapazes e moças do palácio real, os “rezadores”, como eram chamados.

 

O proto-mártir de Uganda: São José Mukasa

 

José Mukasa, de 26 anos, um dos convertidos ao catolicismo, era um dos braços direitos de Muanga. De temperamento tranquilo, merecera do rei Mutesa o apelido de Balikuddembe, ou “homem de paz”. Ele estava à testa dos pajens do rei, e depois que se converteu ao catolicismo os defendia contra a tara do monarca. Passou também a repreender o rei por suas ações antinaturais, mostrando-lhe como as Sagradas Escrituras condenam esse vício infame. Por exemplo, com o Levítico, 18, 22, que diz: “Não te aproximarás dum homem como se fosse mulher, porque é uma abominação”. E mais adiante, no versículo 29, acrescenta: “Todo aquele que cometer alguma destas abominações, perecerá do meio do seu povo”. São Paulo afirma que infelizes com esse vício, “como não procuraram a Deus, Deus abandonou-os a um sentimento depravado, para que fizessem o que não convém” (Rom. 1, 28). E declara peremptoriamente que “nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus” (I Cor. 6, 10). José Mukasa lembrava também que Sodoma e Gomorra tinham sido destruídas por causa da prática desse vício infame.

Em 1885, o rei Muanga ficou muito irritado com as repreensões que José lhe fazia constantemente, por causa da vida viciosa e atos contra a natureza por ele praticados.

O primeiro ministro, o bruxo Katikiro, que detestava os cristãos, declarou ao rei que José devia morrer, pois era líder dessa Religião que levava os jovens a desobedecer à autoridade. Muanga concordou e mandou executar José no dia 15 de novembro de 1885. No momento da execução, José pediu que informassem ao rei que “eu o perdôo por matar-me; mas ele precisa mudar de vida. Do contrário, eu o acusarei diante do tribunal de Deus”. Ao lhe ser transmitida a mensagem, Muanga, temeroso, mandou matar um servo e misturar suas cinzas com as de José, para que ele não fosse mais reconhecido; e assim, segundo imaginava o rei, não pudesse falar contra ele no tribunal divino.

 

Prosseguem intimidações, seguidas de martírios

 

Em maio do ano seguinte, Muanga tentou seduzir Muafa. Este era um dos jovens pajens que se recusou ao gravíssimo pecado da prática homossexual, dizendo que seu corpo era templo do Espírito Santo. Muanga soube que o rapaz estava sendo catequizado por outro pajem, Denis Sebuggwawo, de 17 anos, recém-batizado. Mandou-o vir à sua presença e o interrogou sobre o que estava ensinando a Muafa. Denis respondeu corajosamente que lhe ensinava a única Religião verdadeira. Enfurecido, Muanga matou-o com uma lançada no pescoço. São Denis foi, assim, o segundo mártir de Buganda.

Durante a noite que se seguiu ao martírio, Carlos Luanga, que tinha ficado encarregado dos pajens cristãos desde a morte de José, viu que as coisas tomavam um rumo muito perigoso e resolveu batizar quatro pajens ainda catecúmenos ­– inclusive Kizito, de apenas 13 anos – e recomendar-lhes perseverança na fé.

No dia seguinte, Muanga se reuniu com seu conselho e foi decidido exterminar de vez aqueles “fanáticos”, que não obedeciam mais ao rei. Muanga chamou os 100 carrascos reais, convocou todos os pajens para comparecer à sua presença, e disse-lhes: “Os que rezam, vão para aquele lado. Os que não rezam, fiquem aqui junto a mim”.

Carlos Luanga levantou-se, tomou Kizito pela mão e foi se colocar no local indicado para os “rezadores”. Seguiram-no mais doze, todos com menos de 25 anos de idade. Muanga perguntou-lhes se eles pretendiam permanecer cristãos. Todos responderam corajosamente que sim, e foram condenados à morte. O rei mandou vir também um soldado que se tinha tornado católico, Tiago Buzabaliawo, oferecendo-lhe o perdão se apostatasse. Tiago recusou-se terminantemente, e foi engrossar o cortejo dos confessores da fé. Foi também condenado um chefe tribal, André Kagwa, que tinha convertido toda sua família e muitos conhecidos; e Matias Kalemba, juiz suplente num tribunal de província, que primeiro se tinha tornado muçulmano, depois anglicano, convertendo-se finalmente para a verdadeira Religião.

 

Tranquilidade ante a perspectiva do martírio

 

A execução seria em Namungongo, a 60 km de distância. Em cada encruzilhada era imolado um cristão aos deuses locais.

Os condenados passaram perto da casa dos “Padres Brancos”. O Pe. Lourdel, que tinha batizado a vários deles, ficou pasmo diante da tranquilidade e alegria com que se dirigiam ao local do suplício, inclusive o menino Kizito. Quando o sacerdote ergueu sua mão para dar-lhes a absolvição, Tiago Buzabaliawo ergueu suas mãos imobilizadas apontando para o céu, como que a dizer que lá esperava o sacerdote.

Chegados ao local da imolação, os prisioneiros foram atados fortemente, divididos em grupos e trancados em cabanas, amarrados a postes. Os mais velhos de cada grupo encorajavam os mais novos a perseverarem. Assim permaneceram durante uma semana, até que uma gigantesca fogueira terminou de ser montada.

Em 3 de junho, dia da Ascensão, os pajens foram deitados de costas em esteiras de caniço seco, com as mãos amarradas, e colocados na fogueira.

Um dos pajens, Mubaga Tuzinde, de 17 anos, filho do carrasco-mor, teve que enfrentar a pressão do pai, que insistia em que apostatasse. Como Mubaga se mantivesse firme na fé, o pai mandou dar-lhe violenta pancada na nuca para matá-lo antes de pô-lo na fogueira.

Sem prantos nem gritos, mas rezando em alta voz, os mártires entregaram suas almas a Deus, dizendo aos seus carrascos: “Vocês podem matar nosso corpo, mas não nossa alma, que a Deus pertence”.

Os carrascos ficaram perplexos com a atitude tranquila e alegre dos mártires frente à morte, comentando entre si: “Nós já matamos muita gente, mas a nenhum como estes, que não gemem nem choram, nem dizem más palavras. Tudo o que ouvimos é um suave murmúrio de preces. Eles rezam até morrer”.

Entretanto, para Carlos Luanga fora preparada morte ainda mais terrível: ser assado vivo a fogo lento! Um dos pajens católicos, dos três que por motivos ignorados foram poupados, declarou que um dos carrascos separou Carlos Luanga dos outros, dizendo: “Ele será minha vítima”. Carlos foi deitado numa pira em que o fogo foi mantido bem baixo para o ir queimando lentamente. O fogo porém consumiu-lhe as pernas sem tocar no resto do corpo.

O último mártir foi um pajem de nome João Maria, decapitado no dia 27 de janeiro de 1887. No total foram 22 mártires, e este acontecimento teve grande repercussão no mundo inteiro.

 

Sangue dos mártires: semente de novos católicos

 

São Pio X introduziu a causa de beatificação dos servos de Deus Carlos Lwanga, Matias Kalemba e companheiros. Os vinte e dois mártires de Uganda foram beatificados por Bento XV a 6 de junho de 1920. Carlos Lwanga foi declarado “Padroeiro da Juventude Africana” em 1934. Trinta anos depois, o papa Paulo VI canonizou esse grupo de mártires em 18 de outubro de 1964. O mesmo pontífice, em 1969, consagrou o altar do grandioso santuário construído no local onde fora a prisão em Namugongo, na qual os vinte e um pajens, dirigidos por Carlos Lwanga, rezavam aguardando a hora de testemunhar a fé em Cristo.

Como sempre, o sangue dos mártires foi semente de cristãos. Quando os “Padres Brancos” foram expulsos do país, os católicos continuaram seu trabalho de instrução e evangelização, traduzindo para isso o catecismo em sua língua nativa. Mesmo sem sacerdotes, liturgia e sacramentos, essa Igreja acéfala permaneceu viva e cresceu em Uganda. De modo que, quando os missionários voltaram após a morte de Muanga, encontraram quinhentos cristãos e mil catecúmenos esperando por eles. Hoje seu número em Uganda é de mais de um milhão de fiéis.

 

Reflexão

 

O martírio de nossos santos de hoje nos lembra Mateus 10, 17-18;28: “Cuidado com os homens. Eles vos entregarão aos tribunais e vos torturarão nas sinagogas. Sereis levados diante dos governadores e dos reis por minha causa; assim dareis testemunho para eles e os pagãos. Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena.” Esses são santos que hoje certamente seriam perseguidos e martirizados pela “onda gay” que assola o mundo, tenta implantar na sociedade de maioria cristã, uma ditadura, impondo práticas contrárias aos princípios cristãos e, defendidas e praticadas por uma minoria exorbitante. Não irão nos vencer pois, a história desses mártires, prova-nos que o máximo que conseguirão é fazer o cristianismo crescer mais e mais, pois a semente do cristianismo é o sangue dos mártires.

A Gaudium et Spes lembra que há no interior do ser humano “um germe de eternidade”, uma “semente de imortalidade” de onde brota a esperança pela verdadeira vida. Essa semente germinou e produziu frutos nos mártires dos quais nos recordamos hoje.

O testemunho deles nos lembra que a verdadeira vida está no Cristo: quem comer a sua carne e beber o seu sangue, mesmo que morra, viverá. Reflitamos: acreditamos verdadeiramente em Jesus como nosso caminho para a vida eterna? São Carlos Lwanga e companheiros mártires, rogai por nós. Amém

 

Fonte:

 

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=FE5CF4B0-3048-560B-1C6BC1B16C9D4109&mes=Junho2007

http://www.daaz.com.br/espiritualidade/CARLOS_LWANGA.asp

Grifos Nossos

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